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Pesquisa que dá 12 pontos de vantagem a Pazolini concentra 39% da amostra em Vitória e Vila Velha e faz recorte exclusivo que permite identificar eleitores do Republicanos

Seis bairros concentram 17% das entrevistas, enquanto o registro da pesquisa não informa qual ponderação geográfica foi aplicada para corrigir a distribuição da amostra

PortalZ4 por PortalZ4
3 de setembro de 2026
em Destaques, Espirito Santo, Política

A pesquisa AtlasIntel que colocou Lorenzo Pazolini (Republicanos) com 12,3 pontos percentuais de vantagem sobre Ricardo Ferraço (MDB) no primeiro turno apresenta uma distribuição territorial marcada pela forte concentração de entrevistas em Vitória e Vila Velha.

O levantamento foi realizado entre os dias 26 e 31 de agosto de 2026 e divulgado nesta quinta-feira (3). No cenário estimulado para o Governo do Espírito Santo, Pazolini aparece com 41%, seguido por Ricardo Ferraço, com 28,7%, Helder Salomão (PT), com 18,4%, Breno Barcelos (Missão), com 6,8%, e Rafael Demuner (UP), com 0,3%.

Brancos e nulos somam 0,9%, enquanto 3,9% não souberam responder.

Na simulação de segundo turno, Pazolini aparece com 46% e Ferraço com 39,2%. A diferença entre os dois cai para 6,8 pontos percentuais. Brancos e nulos representam 8%, enquanto 6,8% estão indecisos.

Os percentuais foram publicados pela Gazeta do Povo, com base nos dados da AtlasIntel.

A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número ES-00206/2026. O sistema PesqEle informa inicialmente 1.200 entrevistados, margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança estimado em 95%.

O relatório detalhado divulgado pela própria Atlas, porém, apresenta uma amostra final de 1.194 respondentes. A diferença de seis questionários representa 0,5% do levantamento e não alteraria substancialmente os percentuais. Mesmo assim, o instituto precisa esclarecer se as respostas foram descartadas, quais critérios determinaram a exclusão e se a margem de erro foi calculada sobre 1.200 ou 1.194 entrevistas.

Vitória recebeu mais que o dobro de seu peso eleitoral

A distribuição por município mostra que Vitória recebeu 244 das 1.194 entrevistas territorialmente identificadas. A capital concentrou 20,44% de toda a pesquisa estadual.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral consolidados em 1º de setembro de 2026 apontam que Vitória possuía 266.238 eleitores, correspondentes a 8,90% dos 2.990.582 eleitores do Espírito Santo.

Em uma distribuição diretamente proporcional ao eleitorado, Vitória receberia aproximadamente 106 entrevistas. A Atlas destinou 244, uma diferença de 138 questionários.

A capital ficou com uma representação 2,3 vezes superior à sua participação no eleitorado capixaba.

A discrepância possui relevância política porque Pazolini construiu sua principal base eleitoral e administrativa em Vitória. A pesquisa que o coloca na liderança estadual concedeu à capital peso bruto muito superior à dimensão real de seu eleitorado.

Esse dado não comprova que a Atlas tenha agido deliberadamente para beneficiar o candidato nem permite afirmar que a liderança desapareceria depois de uma correção geográfica. Ele revela um risco estatístico objetivo: se Pazolini possui desempenho superior em Vitória, a sobre-representação da capital pode elevar seu percentual estadual caso os questionários não tenham recebido pesos territoriais adequados.

O tamanho desse possível efeito somente poderá ser conhecido com a divulgação dos resultados por município, dos pesos individuais e dos números anteriores à pós-estratificação.

Vitória e Vila Velha ficaram com 39% da amostra

Vila Velha recebeu 224 entrevistas, equivalentes a 18,76% da amostra. O município possui 347.208 eleitores, que representam 11,61% do eleitorado estadual.

Em uma distribuição proporcional, Vila Velha receberia aproximadamente 139 questionários. Foram realizados 224, uma diferença de 85 entrevistas.

Vitória e Vila Velha, juntas, possuem 20,51% dos eleitores capixabas. Na pesquisa Atlas, as duas cidades concentraram 468 respostas, correspondentes a 39,20% da amostra estadual.

Pela referência proporcional, os dois municípios receberiam aproximadamente 245 entrevistas. Foram aplicados 223 questionários acima dessa quantidade.

Município Eleitores Peso eleitoral Entrevistas realizadas Peso na amostra Referência proporcional Diferença
Vitória 266.238 8,90% 244 20,44% 106 +138
Vila Velha 347.208 11,61% 224 18,76% 139 +85
Serra 361.299 12,08% 147 12,31% 144 +3
Cariacica 274.227 9,17% 86 7,20% 110 -24
Cachoeiro de Itapemirim 134.138 4,49% 47 3,94% 54 -7
Linhares 122.398 4,09% 34 2,85% 49 -15
Guarapari 101.612 3,40% 37 3,10% 41 -4
São Mateus 92.420 3,09% 28 2,35% 37 -9
Colatina 87.212 2,92% 35 2,93% 35 0
Aracruz 75.170 2,51% 15 1,26% 30 -15
Viana 54.416 1,82% 10 0,84% 22 -12
Nova Venécia 41.258 1,38% 7 0,59% 16 -9
Santa Maria de Jetibá 31.316 1,05% 4 0,34% 13 -9
Afonso Cláudio 26.279 0,88% 2 0,17% 10 -8
Baixo Guandu 24.947 0,83% 2 0,17% 10 -8

Os números proporcionais funcionam como referência técnica. A legislação eleitoral não determina que toda pesquisa estadual distribua questionários em correspondência matemática absoluta com o eleitorado municipal.

Desenhos por conglomerados, estratos ou recrutamento digital podem produzir uma amostra bruta territorialmente diferente. O instituto, entretanto, precisa explicar como os pesos aplicados devolveram aos municípios e às regiões sua participação correta no resultado estadual.

Piúma recebe peso superior ao seu eleitorado, enquanto Viana perde espaço na amostra

A distribuição da Atlas também apresenta discrepâncias entre municípios fora do principal eixo da pesquisa. Piúma, com eleitorado aproximadamente três vezes menor que o de Viana, recebeu mais questionários.

Município Eleitorado Peso eleitoral Entrevistas realizadas Quantidade proporcional esperada Representação
Viana 54.416 1,82% 10 22 54% abaixo
Piúma 17.376 0,58% 11 7 59% acima

Viana possui 54.416 eleitores, mas recebeu 10 entrevistas. Piúma reúne 17.376 eleitores e ficou com 11 questionários. Pela proporção estadual, Viana deveria receber aproximadamente 22 entrevistas e Piúma, sete.

Serra ficou próxima da proporção correta

Serra é o maior colégio eleitoral do Espírito Santo, com 361.299 eleitores. O município aparece somente na terceira posição em número absoluto de questionários, com 147, atrás de Vitória e Vila Velha.

Apesar da posição, a quantidade de Serra ficou próxima da referência proporcional. O município possui 12,08% do eleitorado e recebeu 12,31% das entrevistas. Pela distribuição direta, teria aproximadamente 144 questionários.

A distorção mais relevante não está na quantidade de Serra, mas no excesso de entrevistas em Vitória e Vila Velha. Para acomodar essa concentração dentro de uma amostra limitada a 1.194 pessoas, outros municípios perderam espaço.

Cariacica deveria receber aproximadamente 110 questionários e ficou com 86. Linhares teria 49 e recebeu 34. Aracruz teria 30 e apareceu com 15. Viana deveria ter aproximadamente 22 entrevistas e ficou com 10.

Grande Vitória recebeu quase 60% dos questionários

Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana somam 1.303.388 eleitores. Os cinco municípios representam 43,58% do eleitorado estadual.

Na pesquisa Atlas, eles receberam 711 entrevistas, correspondentes a 59,55% da amostra. Uma divisão proporcional destinaria aproximadamente 520 questionários à região.

A Grande Vitória ficou com cerca de 191 entrevistas acima de sua participação no eleitorado. O restante do Espírito Santo, que reúne 56,42% dos eleitores, respondeu por apenas 40,45% dos questionários.

Essa diferença afeta a sensibilidade territorial da pesquisa. Uma amostra excessivamente metropolitana pode captar com maior intensidade os problemas, avaliações administrativas, lideranças e preferências políticas da Grande Vitória, enquanto reduz a presença das demais regiões.

Deslocamento de Vila Velha para Vitória pode concentrar um padrão de eleitor para além da Terceira Ponte

O deslocamento diário de moradores de Vila Velha que trabalham, estudam ou utilizam serviços em Vitória amplia a exposição desses eleitores à publicidade institucional, às obras, aos serviços públicos e aos efeitos da administração da capital. Essa convivência cotidiana pode aproximar parte do eleitorado canela-verde do ambiente político de Vitória, fazendo com que a concentração das entrevistas nas duas cidades reproduza um padrão de percepção semelhante e aumente indiretamente o peso da principal base política de Pazolini na pesquisa estadual.

Seis bairros produziram 17% de toda a pesquisa

A concentração também aparece dentro de Vitória e Vila Velha.

Em Vitória, Jardim Camburi recebeu 60 entrevistas, Jardim da Penha teve 35 e Praia do Canto apareceu com 18.

Os três bairros somaram 113 respostas. Eles representam 46,31% dos questionários da capital e 9,46% de toda a pesquisa estadual.

Bairro de Vitória Entrevistas
Jardim Camburi 60
Jardim da Penha 35
Praia do Canto 18
Centro 13
Bento Ferreira 10
Mata da Praia 8
Barro Vermelho 8
Santa Lúcia 6
Monte Belo 5
Maria Ortiz 5

Em Vila Velha, a Praia da Costa recebeu 38 entrevistas, Itapuã teve 30 e Praia de Itaparica apareceu com 22. Os três bairros somaram 90 respostas, equivalentes a 40,18% dos questionários do município e a 7,54% da pesquisa estadual.

Somente esses seis bairros de Vitória e Vila Velha reuniram 203 entrevistas. Eles responderam por 17% de todo o levantamento sobre o Governo do Espírito Santo.

Esse recorte não permite afirmar que os moradores dessas áreas votem de maneira uniforme. Ele demonstra que uma parcela significativa do resultado foi formada em espaço geográfico restrito e ligado ao ambiente político no qual Pazolini possui maior exposição administrativa.

Atlas cria recorte exclusivo para eleitorados ligados a candidatos do Republicanos

O questionário inclui perguntas municipais somente para Vitória e Serra, cidades da Grande Vitória onde o Republicanos disputou as prefeituras em 2024. Na capital, Lorenzo Pazolini foi reeleito no primeiro turno. Na Serra, Pablo Muribeca avançou ao segundo turno, mas foi derrotado por Weverson Meireles. Esse recorte permite identificar antigos eleitores dos dois candidatos do partido, enquanto não existe pergunta equivalente para moradores de Vila Velha, Cariacica ou dos demais municípios. A escolha pode servir à validação estatística, mas também produz informações políticas específicas sobre a base do Republicanos. Por isso, a Atlas precisa esclarecer por que selecionou apenas essas duas cidades e se as respostas foram utilizadas na ponderação ou calibração do resultado estadual.

Interior ficou restrito a poucas respostas

Em vários municípios, a quantidade de entrevistas foi pequena ou ficou concentrada na região central.

Guarapari teve 36 das 37 respostas atribuídas ao Centro. São Mateus registrou 24 das 28 entrevistas na área central. Castelo teve 14 dos 15 questionários no Centro. Anchieta e Pinheiros concentraram 10 de suas 12 entrevistas nessa mesma classificação.

Sooretama, com 21.002 eleitores, teve apenas uma resposta. Afonso Cláudio, com 26.279, recebeu duas. Baixo Guandu, com 24.947, também ficou com duas. Santa Maria de Jetibá, com 31.316 eleitores, apareceu com quatro questionários.

A pesquisa identificou entrevistados em 74 dos 78 municípios. Irupi, Laranja da Terra, Dores do Rio Preto e Divino de São Lourenço ficaram sem respostas.

A ausência desses quatro municípios possui impacto numérico reduzido. A maior preocupação está na sub-representação conjunta de cidades médias e das regiões fora da Grande Vitória.

Em 2024, coligação de Pazolini conseguiu suspender duas pesquisas da Atlas que favoreciam adversário

A confiabilidade da AtlasIntel já foi questionada pela própria coligação de Lorenzo Pazolini nas eleições municipais de 2024. Na ocasião, a Justiça Eleitoral suspendeu dois levantamentos do instituto que apresentavam cenário favorável a Luiz Paulo Vellozo Lucas. A ação apontou falhas na identificação do eleitorado, inclusão de localidades fora de Vitória, ausência de segmentos educacionais, coleta exclusivamente digital, insuficiência dos mecanismos de auditoria e possível efeito de ancoragem no questionário. Agora, uma pesquisa da mesma empresa, marcada pela concentração de entrevistas na principal base eleitoral de Pazolini, coloca o candidato na liderança da disputa estadual.

Metodologia da Atlas também é questionada em outros estados

Os questionamentos sobre a transparência dos levantamentos da AtlasIntel também surgiram em outros estados. No Acre, a coligação do candidato Alan Rick (Republicanos) acionou o Tribunal Regional Eleitoral para questionar a metodologia de amostragem digital, a abrangência da coleta no interior e a regularidade do registro de uma pesquisa divulgada pelo instituto. A ação permanece submetida à análise da Justiça Eleitoral e não representa, por si só, reconhecimento de irregularidade.

Uma decisão mais concreta foi proferida pelo Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão. A Justiça suspendeu liminarmente a divulgação da pesquisa AtlasIntel registrada sob o número MA-09485/2026 após identificar aparentes divergências entre os cargos informados no PesqEle e as perguntas efetivamente inseridas no questionário. O levantamento estava registrado para governador e senador, mas continha um módulo completo sobre a disputa presidencial.

O TRE-MA também considerou relevante a ausência de justificativa para a repetição de um mesmo candidato em todos os cenários de segundo turno. Segundo a decisão, essa apresentação poderia transmitir ao entrevistado a percepção de que determinada candidatura já estaria consolidada na etapa seguinte da eleição. A divulgação foi suspensa até a manifestação das partes e o esclarecimento das inconsistências, sob pena de multa de R$ 50 mil para cada representada.

O fundamento adotado no Maranhão possui relação com o questionamento levantado no Espírito Santo: a Justiça não escolhe a metodologia do instituto, mas pode exigir correspondência entre as informações registradas, o questionário aplicado e a execução efetiva da pesquisa. No caso capixaba, a dúvida recai sobre a ausência de ponderação territorial informada diante da concentração de ,44% das entrevistas em Vitória e de 39,20% em Vitória e Vila Velha.

Plano informa quatro ponderações, mas nenhuma geográfica

No PesqEle, a Atlas declara uma amostra aleatória pós-estratificada por algoritmo iterativo. As variáveis informadas para ponderação são sexo, faixa etária, escolaridade e renda familiar.

O registro não apresenta ajuste por município, região, setor censitário ou tipo de área.

A relação posterior de bairros e setores informa onde estavam os entrevistados. Ela não mostra quanto cada questionário valeu no cálculo dos 41% atribuídos a Pazolini ou dos 28,7% destinados a Ferraço.

Para que Vitória retornasse de 20,44% da amostra aos 8,90% correspondentes ao seu eleitorado, cada questionário da capital precisaria receber peso aproximado de 0,44 em uma correção municipal direta.

Em Vila Velha, o peso seria próximo de 0,62. Em Cariacica, onde ocorreu sub-representação, cada entrevista precisaria receber peso aproximado de 1,27. Serra demandaria ajuste mínimo, próximo de 0,98.

A Atlas pode até empregar um modelo mais complexo que combine municípios, regiões e características demográficas. O problema está na falta de informação pública sobre essa correção.

Sem os pesos, não existe maneira de calcular se a concentração elevou a posição de Pazolini, reduziu o desempenho de Ferraço ou preservou os mesmos percentuais depois dos ajustes.

Margem de três pontos também precisa ser demonstrada

A margem de erro de três pontos percentuais corresponde aproximadamente ao cálculo tradicional para uma amostra aleatória simples com cerca de 1.200 pessoas.

Uma pesquisa digital pós-estratificada precisa considerar a variação dos pesos. Quanto maior a diferença entre eles, menor tende a ser o tamanho efetivo da amostra.

Um levantamento pode possuir 1.194 respostas no banco de dados, mas apresentar precisão equivalente à de uma amostra menor depois das correções. Essa diferença é medida pelo efeito do desenho.

A Atlas não informou, no material analisado, o tamanho efetivo da amostra, a distribuição dos pesos nem o efeito do desenho incorporado à margem de erro.

O instituto também precisa explicar o significado operacional de “recrutamento digital aleatório”. O documento não identifica o cadastro utilizado para selecionar os participantes, a probabilidade de inclusão de cada eleitor, a taxa de resposta ou a forma de confirmação do domicílio eleitoral.

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